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January 24 Sim senhor, chefe!Os subalternos
Definição
É um espécime que se define pela pertença a um Chefe. Todo chefe tem pelo menos um subalterno. Via de regra, são vários, muitos. Alguns chefes chegam a colecionar subalternos em grande quantidade. O chefe de apenas um subalterno é chamado chefe trainee e geralmente possui o subalterno apenas para descontar as broncas que leva do seu chefe, pois o chefe trainee tem sempre outro chefe. Em outros termos, esse tipo de chefe não passa de um estagiário de chefia. De acordo com o estado físico apresentado pelo seu subalterno, pode ascender a chefe sênior. Se o subalterno ficar aleijado, esquizofrênico ou se vier a falecer, o trainee pode, inclusive, se candidatar a presidente da empresa.
Sentido existencial
Por que o chefe tem subalternos? A resposta é simples: para humilhá-los. O chefe somente se realiza e eleva a sua autoestima quando dá aquela esculhambação nos subalternos. Estes, embora pareça insensato, sentem-se bastante felizes e não reclamam se houver torturas ou descontos em folha. Tranquilos, sabem que a ira do chefe é um bom, um excelente sinal. Só o chefe irado, possesso, o chefe que cospe marimbondos, ama seus subordinados. Patologias
O subalterno sente o coração pulsar forte quando vê o chefe. Já na sua ausência sente prostração e falta de disposição para qualquer atividade produtiva. Em casos graves, a mão do subalterno, que sempre se amolda perfeitamente ao saco do chefe (nunca esqueça que mesmo os chefes do sexo feminino têm saco, mas não para tolerar suas gracinhas), pode, sem ter o que pegar, se voltar contra o subalterno. A ausência prolongada do chefe pode levar a quadros clínicos como aquele no qual, entre delírios e alucinações, o subalterno vê o chefe em todos os lugares e, suprema heresia, chama de chefe quem não é chefe. A medicina tem registros de patologias raras, nas quais o subalterno crê ser, ele mesmo, o próprio chefe. São situações de prognóstico nefasto e ganham o nome de Cri du Chef, pois o pobre mortal trata a todos em sua volta com gritos iguais aos que ouve do chefe. Quem acha que já viu de tudo na vida deve ir a um sanatório e procurar por um deles. Mas, vá prevenido. É uma experiência chocante.
Raízes genéticas
De todo modo, é importante para todo subalterno saber que é um privilegiado. Veio a este mundo com a missão de ter um chefe, o que garante uma tranquilíssima vida medíocre e sem culpas. Pesquisas recentes demonstram que é possível isolar o DNA do subalterno, sempre uma cópia imperfeita do código genético do chefe. Identificação
Comportamentalmente, o subalterno é identificável a olho nu desde a sala de parto. É aquele recém-nascido que bate continência para o médico e despreza a pobre mãe, que será, por toda a vida, tratada apenas como um recipiente no qual sua essência subalterna habitou por nove meses. Mas há os que, nas brincadeiras infantis, demonstram inaudita crueldade e surram frequentemente os mais fracos. Nestes casos, cabe investigar se não houve troca de bebês na maternidade. Você pode estar diante de um chefe nato e hereditário. Tipos de subalternos
Há os que acreditam haver apenas uma modalidade de subalternos. Ledo engano, pois há várias, das quais destacamos três básicas. Há os subalternos dóceis, os que aceitam ipsis litteris as determinações do chefe. Entre esses, há subdivisões sutis entre os que ainda as elogiam e os que pensam em fazer isso, mas caem em prantos levados pela emoção de receber uma ordem e não conseguem tecer todas as loas que gostariam. Há os subalternos ambivalentes, que são aqueles que acatam prontamente as decisões do chefe, mas resmungam longe da sua vista. Não o fazem por mal. O que os motiva podem ser más companhias, degenerações de personalidade ou problemas de encosto.
Os recalcitrantes, o terceiro tipo, são uma espécie em extinção. Caçados pelos subalternos normais, os dóceis, são denunciados, julgados e sumariamente executados por justa causa. São, ou eram, aqueles que aceitam, ou aceitavam, as ordens e fazem, faziam, as coisas à sua moda. Sumirão definitivamente do mapa, da mesma forma como aconteceu com os subalternos rebeldes, os que discutiam as ordens do chefe. Estes podem ser encontrados, empalhados, em museus, na seção paleolítica, ao lado dos dinossauros e tigres de dentes de sabre. Dos subalternos violentos, os que se recusavam a cumprir as ordens, só restam ossadas.
Subalternidade cultual
De acordo com os rígidos preceitos religiosos que adotam, os subalternos amam o chefe acima de todas as coisas. Engana-se aquele que acha que esses seres amam o chefe como a si próprios. Amam apenas o chefe e, se este permitir, podem ter até certa simpatia em relação a si próprios. Os mandamentos do subalterno incluem também não cobiçar as secretárias do chefe, nunca pronunciar o nome do chefe se não for para elogiá-lo, não furtar a paciência do chefe e jamais matar tempo jogando paciência ou pondo açúcar no café. A já citada "hora do esporro" é solene, um momento sacro, comparável a uma canonização. O subalterno sente-se purificado ao ser banhado pela saliva benta do chefe.
Terminologias
Os subalternos têm outros nomes que os identificam. Podem ser chamados de ralé, plebe, rebotalho, bagrinhos, barnabés, rataria, etc. etc.. Em público, com exceção dos sacros momentos da mijada, o chefe nunca os chama assim. Frequentemente os classifica como “colaboradores”. Já na intimidade do lar ou em reuniões com outros chefes, os subalternos são usualmente chamados de “aqueles merdas” ou “os filhos-da-puta”. O subalterno e a política
Há subalternos que fundam sindicatos. Geralmente, as greves são suspensas no primeiro soco na mesa que o chefe dá e as negociações terminam quando acaba a estabilidade no emprego. São piores que chatos, por isso não é raro acabarem também grudados no saco do chefe. Nesse caso, não há negociações ou greves e tudo segue como deve ser. Houve, na história humana, aqueles que intentaram sublevar os subalternos. Um deles cunhou a célebre exortação: “subalternos de todo o mundo, uni-vos”. Eles se uniram, mas quando descobriram que iam ter que ser seus próprios chefes, escolheram novos chefes. Estes, mais chefes que os antigos chefes, também se uniram para esfolar os subordinados. E, assim, todos vivem felizes para sempre. January 20 PedrãoAgora há pouco, soube que Pedro Franco se foi. Saudade, querido amigo. Saudade. Costuma-se dizer que todos somos substituíveis. Então, você é uma exceção. CHOQUE DE ORDEMHaja sanidade
Por Luiz Geremias em 20/1/2009
Diz Zygmunt Bauman que a sociedade de consumo só pode prosperar enquanto conseguir tornar perene a insatisfação de seus membros, isto é, enquanto puder promover a infelicidade deles. Em outros termos, o que é feito é a promoção dos desejos e a sua quase imediata frustração. Isso é muito complicado, pois tudo parece indicar que o propósito é a felicidade, já que as falas e discursos publicitários seguem nesse sentido. A proposta é a da satisfação de todos os desejos a partir da aquisição de objetos. Ora, se isso fosse possível, a própria proposta não se sustentaria, pois o consumidor satisfeito não compraria mais nada, não consumiria. Logo, não é a satisfação que se propõe, mas a eclosão de mais e mais desejos que jamais serão satisfeitos a não ser momentaneamente e, com toda certeza, insatisfatoriamente, dada a quase instantânea obsolescência dos objetos adquiridos. Não há qualquer perspectiva de satisfação, pois isso solaparia a lógica do sistema. Há, de modo oposto, a promoção da insatisfação.
O consumidor se encontra num dilema terrível. De algum modo, como a felicidade é a promessa fundamental, ela se torna praticamente obrigatória e a infelicidade, assim, se torna praticamente um crime (ou, no mínimo, um desvio pecaminoso, diz Bauman) – Jean Baudrillard já havia enunciado isso há décadas, falando do fun system. O sujeito feliz é a meta, mas o sujeito infeliz é a realidade essencial. Dupla mensagem que enlouquece e que obriga o sujeito a se sujeitar a uma vida infeliz plena de afirmações de felicidade.
Haja sanidade. Mas, afinal, sanidade é tudo o que não se espera do consumidor. Não é, definitivamente, uma virtude pós-moderna.
"Pânico moral"
A insegurança básica do consumidor é o terreno sobre o qual viceja aquilo que Bauman chama de "pânicos morais". Trata-se de terrores difusos que se concentram em alvos fixos, específicos e tangíveis, porém irreais – "O erro nunca está no próprio sistema, sempre foi alguém que cometeu algum desacerto ou crime", lembra Robert Kurz.
Esses alvos, com incrível freqüência, são colados às "pessoas sem valor de mercado", aos "consumidores falhos", pessoas que, por diversos motivos, não se conformam ou se adequam às atividades de consumo e devem representar, para os consumidores padrão, tudo aquilo a ser evitado (pessoas que, se possível, devem sumir da vista). Genericamente, são conhecidos como "subclasse", um agregado de pessoas declaradas fora dos limites de classe social, com exíguas chances de integração. Alguns os definem como lumpens, mas no frigir dos ovos não passam de "bodes expiatórios" aos quais a sociedade transfere seus pecados e, por conta disso, os apedreja.
Um bom exemplo vem do Rio de Janeiro, onde Eduardo Paes, o novo prefeito (que parece seguir os ensinamentos do antigo prefeito Cesar Maia, muito embora, por prováveis motivos circunstanciais, tenha sido eleito como oposição), inventou o slogan "Choque de Ordem" para denominar o ataque prioritário a camelôs, invasores e moradores de rua, mas também a outros infratores menores, como motoristas que estacionam nas calçadas e também a construções irregulares. O slogan identifica uma ação fundada na promoção de um "pânico moral" e na crença infantil de que, sumindo da vista, essas "pessoas sem valor de mercado" trariam bem-estar aos consumidores "com valor de mercado".
Ordem, insegurança e terror
O "Choque de Ordem" está fundamentado na ideologia da "Tolerância Zero", criada em Nova York há aproximadamente uma década e já evocada pelo ex-governador carioca Anthony Garotinho para criar uma "sensação de segurança" na população. O novo prefeito não parece muito original.
De forma clara, esse zeramento de tolerância se define por perseguir e encarcerar os pequenos criminosos, o que deixa em aberto se os grandes criminosos seriam também perseguidos. Na prática, parece que não seriam, não são e nada indica que efetivamente o serão. Para o grande crime, a tolerância parece ser mais folgada. Disso, não é ordeiro falar, pois é chocante demais. Não é muito polido dizer que o tal "Choque de Ordem" não é mais do que a expulsão dos pobres de lugares com potencial para especulação econômica e imobiliária.
Em resumo, no "Choque de Ordem" os personagens são principalmente os camelôs, os desempregados, os invasores e os moradores de rua, isto é, os maus consumidores. O objetivo é fazer crer aos consumidores cariocas que são esses pobres-diabos que causam a insegurança. E mais: que uma bela imagem urbana, "ordeira", é fator de segurança. Doce e trágica ilusão.
Ora, como dito anteriormente, ao mesmo tempo em que a vida insegura é a essência desta sociedade, há os que nos querem fazer crer o oposto. E mais: que o que atrapalha a segurança são os "outros", os diferentes, ou, bem se pode dizer, os maus consumidores, os pobres que usam as calçadas para vender todo tipo de coisas ou simplesmente para dormir. Para eles, diz Bauman, tolerância zero.
As coisas são tão loucas num mundo assim que é possível mesmo afirmar que quanto mais ordem, mais insegurança, quanto mais "segurança pública", mais terror. Mas, esse é o jogo e é preciso saber jogar com essas regras sem enlouquecer. De todo modo, é sempre útil saber que nos estão enganando e que a nossa loucura e a nossa estupidez são fundamentais para a sobrevivência dessa lógica social. Saber disso faz sofrer, mas ao menos nos devolve um pouco de sanidade.
Mais insegurança, mais infelicidade
Com alguma sensatez, é possível apontar para a chamada "grande imprensa" como a difusora dessa tramóia discursiva. É nos jornais, nas rádios, nas TVs e nos portais noticiosos que a "população ordeira", os "consumidores com valor de mercado", ficam sabendo que a cidade será "chocada pela ordem". E, principalmente, essas práticas são noticiadas sem qualquer abordagem crítica: muito pelo contrário, costumam receber incentivos esperançosos do tipo "a iniciativa é louvável". Nisso consiste, em grande parte, a objetividade e a imparcialidade desses respeitáveis veículos.
As empresas de comunicação se definem como aliadas da ordem consumista. Promovem o medo e a insegurança, minam a sanidade. São parceiras na proposição fantasiosa de que, adequando-se a essa ordem, o sujeito encontrará a satisfação, embora essa não seja a verdadeira proposta. Nem ao menos a formação de uma consciência crítica a grande imprensa tem promovido, o que seria a sua função pública.
Nesse sentido, o jornalismo cada vez mais se aproxima da publicidade, criando frases e arranjando notícias especificamente para conseguir dois objetivos fundamentais: desviar a atenção da insegurança do consumidor, dirigindo-a para alvos fantasiosos, e patrocinar mais insegurança e mais infelicidade mascarada de felicidade. Mesmo que pareça anacrônico, não é demais repetir: haja sanidade para lidar com isso. January 18 Juventude caretaQue caretice, hein? Alguém lembra Elvis, vem à cabeça o desafio de suas reboladas diante das câmeras de televisão, que só lhe podiam captar da barriga para acima. Ou o punk, com suas ultrajantes aparências, seu vocabulário chulo e sua antimúsica, pura rebeldia, pensamos. Isso sem falar da língua de Mick Jagger, das seringas de Lou Reed, da poesia e das bebedeiras de Jim Morrison, de Bob Dylan e suas baladas pacifistas. A impressão que se tem é que houve uma brutal modificação dos costumes e, principalmente, que foi gerada por uma geração de jovens. Que o mundo adulto caiu por terra e confiar em alguém com mais de 30 passou a ser quase crime inafiançável. Bobice, diria eu. Não houve nada disso. E, hoje, com a compreensão que é possível ter da sociedade gerada a partir da guinada jovem, pode-se dizer mesmo que não houve qualquer alteração a não ser a eclosão de uma sociabilidade de total controle através do que se pode definir genericamente como “cultura consumista”. Falemos do “velho e bom” rock’n’roll. Apesar de sabê-lo umbilicalmente atado à produção da velha indústria cultural, ou seja, moldado e difundido por meios de comunicação de massa, ainda há quem queira ver nele uma libertária linguagem universal da juventude. Trata-se, na verdade, de uma linguagem da juventude, mas claramente estereotipada e nada libertária. E mais: “representa” uma crítica ao sistema industrial, à sociedade moderna “sólida” – num termo de Zygmunt Bauman – etc. etc. No entanto, não é, efetivamente, uma crítica, mas, repito, uma representação. E há uma distância abissal entre uma coisa e a sua representação. Razão pela qual a subcultura roqueira deve ser entendida como conformista. Jamais intentou transformar ou revolucionar nada na medida em que resolveu representar uma guerra ao invés de fazer a guerra. Surge, nos sixties, a crítica jovem pré-moldada, a absorção infantil dos elementos de reforço ao sistema capitalístico, como se estes fossem ácidos corrosivos para sua base – mas o ácido lisérgico, na verdade, não corrói nada além da cognição do usuário. Nelson Rodrigues, com seu muitas vezes brilhante reacionarismo, já dizia que o jovem tem todos os defeitos do adulto com a adição da inexperiência. Sem dúvida, ao estudar a “revolta jovem” e seus sucedâneos, é preciso concordar com ele. E, da mesma forma, entender, com Erich Fromm, que o rebelde só pretende tomar o lugar do inimigo para ser como ele. Se formos mais longe, vamos nos alarmar, pois toda a mentalidade sofisticada de consumo que surge a partir dessa “revolta” pode ser observada, hoje, em todas as idades. Ser jovem passou a ser bom. Melhor que bom: obrigatório. Não qualquer tipo de jovem, é claro. Como lembra Beatriz Sarlo, o jovem Fidel Castro não tem nada a ver com o “adolescente congelado” Mick Jagger. A juventude ideal e obrigatória destes tempos pós-modernos é a de um robotic puppet disciplinado para a rebeldia, que pretende parecer revolucionário, mas jamais fará uma revolução. Assim, pode-se ver, se consegue mudar todos os dias, mantendo tudo como está, ou seja, sem alterar um milímetro a realidade. Em outros termos, isso se chama “conservadorismo”. E, em palavras mais diretas, era exatamente isso o que a “revolta jovem” dizia combater. Que caretice, hein? Tá certo, chefia!Pelo amor do Chefe
O Chefe não erra, não comete enganos, não titubeia nem flerta, muito menos assedia. O Chefe não parece ser, o Chefe é. Se Ele diz, é verdade, não há sofisma. Se Ele quer, será. Se o Chefe diz, cumpra-se. E se Ele, ou Ela, dá em cima de você, a culpa é sua. Ou, se não culpa, foi você que seduziu, seu, ou sua, safado, ou safada.
Há tolos que classificam o Chefe como onipotente, onisciente, criador do céu e da terra etc. etc. Besteira. O Chefe está para além de tudo isso. Ele é Chefe, não se esqueça disso. Sua família e sua pele lhe serão gratas pela lembrança. Deus pode ter te dado a vida, mas é o Chefe que toma conta dela até que o diabo a carregue.
Aliás, a existência do Chefe é a prova terrena mais cabal de que Deus realmente existe. Graças ao Chefe você pode dormir tranquilo e alimentar a esperança de, um dia, cair nas graças do Chefe Celestial. Isso certamente nunca vai acontecer, assim como não há nenhuma simpatia do Chefe por você. Sonhe, mas não se iluda.
Outro mito a ser derrubado é o de que todos devem almejar ser Chefes. Chefe só há um. Todo e qualquer subalterno que se arvore a reivindicar o lugar sagrado do Chefe será fulminado por justa causa. A César o que é de César, ao Chefe o que é do Chefe. Você está querendo o quê? Volta pra tua mesa e trabalha, mero mortal.
Ter um Chefe é providencial. Apenas os seres unicelulares não o têm, sendo que são seus próprios Chefes e, por isso, jamais evoluíram.
O Chefe tem predicados irrefutáveis. Entre eles, a santa capacidade de nos livrar de alguns problemas e infortúnios. Se há um Chefe, não é necessário decidir nada, pois Ele o fará por você. E estará sempre certo, lembre-se. Se alguma coisa der errado, foi você que não soube cumprir as ordens direito.
Saiba se prevenir dos falsos Chefes. É fácil reconhecer imitações. O Chefe que trata muito bem os subalternos, por exemplo. Você logo perceberá a falsificação grosseira. O Chefe sabe que é temido e que precisa ser temido, por isso só conversa com você com o chicote. Não tente se aproximar nem morder sua mão. É ela que te alimenta, você sabe.
Chefe é amor, mas costuma atrair muito ódio. Se você odeia o seu Chefe, se confesse. Para o Chefe, é claro. Não faça isso sem primeiro espalhar vidro moído pelo chão e ajoelhar em cima. Sorte se te perdoar. Maior sorte ainda se te mantiver no emprego.
Você já deve ter entendido que não se discute com o Chefe. Elogiá-lo é obrigação, mas sem exageros. Lembre-se que entre o sublime e o ridículo há apenas um passo. Apologias exorbitantes e declarações melosas podem ser interpretadas como chacota. Se isso acontecer, seu único proveito vai ser saber o que sentiram os habitantes de Pompéia quando o Vesúvio cuspiu fogo.
Se você ainda não entendeu, se liga. Chefe pode ser homem, mas também pode ser mulher. Isso, no crachá. Na prática, na real, para ser Chefe é imprescindível ser muito macho.
O Chefe tem a sua câmara sagrada, a sua sala, que deverá estar sempre de porta fechada, limpa, arrumada e livre da tua presença enfadonha. Não entre na sala do Chefe sem ser mandado ou convidado. Se for mandado, o Chefe provavelmente o fará para passar alguma tarefa. Se convidado, cuidado. Boa parte dos que assim chegaram à sala do Chefe, de lá saíram diretamente para a rua. O convite costuma trazer maus presságios, principalmente se enunciado por outro subalterno. Prefira sempre ouvir uma clara e expressa ordem de comparecimento, se possível com o seu nome berrado com fúria. Aí, pode ir tranquilo.
Se você estiver em um recinto no qual o Chefe entre, perfile-se. Se estiver sentado, levante-se imediatamente. Nada de curvar-se, ficar de joelhos ou fazer salamaleques. Lembre-se que não deve haver paroxismos elegíacos ou louvores excessivos. Descarte expressamente pegá-lo no colo ou lhe tascar aquele beijo inesperado cheio de afeto e baba.
Importante: Nunca, ouça bem, NUNCA!, fale ao mesmo tempo que o Chefe. Se isso acontecer, mesmo que num átimo, peça desculpas, peça licença e vá até o banheiro. Utilize a gravata para um suicídio silencioso. Alças de sutiãs podem também ser usadas, se for o caso. Afogar-se na privada é grotesco e enfurece ainda mais o Chefe.
Cultive o seu Chefe. Ele é magnânimo, mas para desprender todo seu fulgor necessita de cuidados especiais. É, no fim de tudo, uma frágil plantinha que necessita de todo o carinho. Precisa da semente da estima, da irrigação da obediência, da luz do elogio e do ar puro do sorriso sincero de seus comandados. Agindo assim, você certamente terá as flores da boa convivência e, quem sabe, colherá os frutos do reconhecimento do seu valor. E olha que você não tem nenhum.
Para completar, lembre-se: o Chefe de bom humor é um bem precioso. Porém, é impossível evitar dias de tormenta. Quando ocorrer, não use guardachuva. A mijada do Chefe é fértil.
PS: Ah, ia esquecendo. Tem Chefe com diploma, mas também tem chefe semianalfabeto. Ao primeiro, você chama de doutor, ao segundo, de excelência. November 15 Um dos melhores textos que já liMineirinho
Clarice Lispector (crônica de 1978, publicada no livro “Para não esquecer”, Editora Siciliano).
É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que esta doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: 'O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no Céu.' Respondi-lhe que 'mais do que muita gente que não matou'.
Por que? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porquê eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordem, e com horror digo tarde demais - vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu - que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for preciso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente - não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.
Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo e Mineirinho - essa coisa que move montanhas e é a mesma que o faz gostar 'feito doido' de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador - em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição. A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porquê adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime .
Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila, e que os outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.
Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo - uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do S. Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muita séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é o desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.
Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização. Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso - nesse instante estásendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranqüila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno. November 12 Sobre o popE, no entanto, ele passa...
Uma das características da vida pós-moderna, dizem, é o abandono do conceito de identidade. Michel Maffesoli chega a dizer que não há mais como falar nisso, pois viveríamos o tempo da identificação. Essa seria uma resposta, para alguns, revolucionária, de grande importância na transformação dos costumes ocidentais, ou, para outros, evolutiva, uma nova mentalidade para um novo tempo, à rigidez da identidade moderna. O conceito de identidade, de “eu”, possuía uma pesada solidez, uma unicidade indisfarçável. Já o “eu” pós-moderno é jovem, dinâmico e multifacetado. A identidade é substituída pelas máscaras que variam conforme a identificação.
Até certo ponto da história do ocidente, as características da identificação pós-moderna eram atribuídas ao adolescente. Já no século XIX, essa fase da vida começou a ganhar atenção do discurso médico e a ser definido como um momento de instabilidade e incertezas, um vácuo no qual se deixava de ser criança e se entronizava no mundo adulto, isto é, assumia-se uma identidade. Esta permaneceria por toda a vida, ou quase.
Observando as características da cultura e da sociabilidade na sociedade ocidental contemporânea, é possível dizer, assim, que, aparentemente, todo o ocidente se transformou num continente de adolescentes, ou, melhor dizendo, de jovens. Como bem entende Beatriz Sarlo: A infância quase desapareceu, encurralada por uma adolescência precocíssima. A primeira juventude se prolonga até depois dos 30 anos. Um terço da vida se desenvolve sob o rótulo de juventude, tão convencional quanto quaisquer outros rótulos.
Grandes quantidades de “jovens” de todas as idades se reúnem em grandes shows, abdicam de seu “eu” – no sentido clássico, indivisível – e se fragmentam como partes da multidão em veneração a seus ídolos. Vivenciam um grande corpo coletivo e é este quem lhes diz quem são. Por outro lado, constituem-se como nichos de consumo na medida em que grupos se destacam do todo para formalizar pequenas experiências estéticas, como vestir-se de certo modo – via de regra, anárquico, ou supostamente anárquico, já que é pastiche –, escutar certo tipo de música, dançar de certa maneira etc. Irmanados, sempre, pela égide da rebeldia.
Acompanhando Sarlo, é possível dizer, nessa conjuntura, que alguém sugere ao corpo coletivo quem ele é, isto é, lhe fornece os parâmetros subjetivos segundo os quais se dá a identificação. Segundo ela, consumidores efetivos ou consumidores imaginários, os jovens encontram no mercado de mercadorias e bens simbólicos um depósito de objetos e discursos fast preparados especialmente. A autora lembra que a obsolescência acelerada, fruto da velocidade de circulação, determina que tudo deve ser novo, o que é fundamental para o capitalismo. Inegável é, como Sarlo deixa claro, que nunca as necessidades do mercado estiveram afinadas tão precisamente ao imaginário de seus consumidores. A identidade parece ter se fragmentado para encontrar definição na vivência caótica da transgressão rebelde, que, por sua vez, funciona como um fractal . E nesse arranjo fractal, em meio ao caos, surge a ordem. E nesse fractal a forma que se reproduz é a da adolescência eterna, sempre instável, em perene mutação. É preciso, então, observar o fundo que conforma e define essa figura. Diz Sarlo, com sagacidade, que se é verdade que as identidades quebraram, entre seus cacos não ficou o vazio. Ficou o mercado. Por isso, é possível dizer que o pop se constitui como um rito de iniciação ao consumo, uma manifestação cultural dos que mudam todo o tempo para permanecer no mesmo lugar. Mais que isso. Parece se constituir como a frágil garantia de que o tempo não passará.
E, no entanto, ele passa. September 28 Relembrando o passado(Este texto foi escrito no primeiro semestre de 2003)
A perversidade do passado não pode vencer a esperança no futuro. Luiz Geremias
O governo FHC iniciou os trabalhos com a proposta de levar o Brasil ao primeiro mundo. Suas propostas não eram más, se vistas sob o ângulo de um futuro radiante para o país, conforme as promessas oficiais projetavam. As perspectivas abertas por uma fase de euforia financeira mundial faziam muitos sonharem alto, e a entrada do Brasil no reino da fartura se anunciava pela possibilidade de consumir produtos importados a baixo custo, inclusive os deslumbrantes carros que há muito povoavam o imaginário das camadas médias nacionais, que pensavam como Collor: os nacionais eram umas carroças. A estratégia passava pela conquista e manutenção da estabilidade monetária, conforme preconizava o Consenso de Washington1, para, a partir daí, fazer vibrar o trampolim do desenvolvimento. Nessa perspectiva, o país precisava de capital circulante, e este viria pela confiança dos investidores internacionais numa economia confiável, estável e promissora. A estabilidade cambial mostrava a quem quisesse ver que tudo ia bem, com alardeadas tendências a melhorar, no país de FHC. Tudo se afigurava como um bom filme, com um promissor começo. Quem chegou cedo ao cinema, no ano de 1995, o primeiro da Era FHC, viu panorâmicas de uma alegria incontida na sociedade brasileira. Junto com FHC chegava ao poder um bom número de governadores dos partidos de sustentação do governo, e a maioria parlamentar negociada – nem sempre com propostas e promessas estritamente políticas – garantia a operação “Brasil Novo”, com reformas constitucionais que fariam a Era Vargas finalmente superada. Era o futuro que se abria diante dos olhos da classe média brasileira: além dos carrões e eletrodomésticos importados, viagens à Europa, excursões à Orlando, passeios mensais na Disney, passagens para o primeiro mundo mais acessíveis que as nacionais. Uma vida sem fronteiras no horizonte da globalização. Computadores a baixo custo, inseriam milhares de brasileiros na rede mundial, a tão decantada Web, que revolucionaria o conhecimento com seus hipertextos e possibilidades limitadas apenas pela imaginação. Shoppings brotavam do solo como flores numa manhã primaveril e milhares de bons negócios caíam do céu estrelado da economia mundial. O filme era bom demais para sair no meio da sessão. De repente, por um capricho do cineasta ou por um descuido no tão elogiado roteiro, a trama deu um giro de 180%, e a câmera passou a registrar uma outra história. Talvez as primeiras cenas não passassem de um intróito a um filme que começava a incorporar o suspense de forma cada vez mais assustadora. Talvez mesmo este não fosse um enredo dentro do enredo de um drama lacrimoso, ou quem sabe este fosse mais uma faceta de estilo de uma equipe cinematográfica bastante sádica: o suficiente para fazer a ação descambar para uma fita de horror.
A perversidade do modelo neoliberal2. Intelectual admirado no meio acadêmico, professor da Universidade de Sorbone, autor da tese da dependência estrutural dos países do terceiro-mundo, diplomata por gosto e vocação, Senador da República, Ministro da Fazenda. Uma biografia que incorpora em toda sua extensão títulos e títulos de importância dentro do cenário político e intelectual. FHC trazia toda essa bagagem quando procurou o PFL para concretizar a aliança que o levaria à Presidência da República em 1994. Naquele momento, conforme defendia o sociólogo Bolívar Lamounier, um dos defensores contumazes da aliança de centro/direita, estava posta a oportunidade de realizar-se um projeto nacional confiável, com a força da social-democracia aliada ao empresariado nacional, levando o país à consolidação da estabilidade econômica, política e social. Ao assumir, em primeiro de janeiro de 1995, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso anunciou que iria varrer a fome e a miséria, fazer uma revolução social. Para isso, propunha reformas profundas, emendas constitucionais contundentes: a primeira delas, a número um, foi a da reeleição. O dólar, mais barato do que um real, financiava o otimismo e inflava a aprovação popular, com os já citados importados: bebia-se vinho alemão a preço de Sangue de Boi, viajava-se para onde sempre se sonhou e compravam-se eletrodomésticos para todos os fins imagináveis. A base para tanto otimismo estava na estabilidade e na promessa de desenvolvimento econômico, mas para os observadores menos seduzidos pela retórica presidencial, adotada pela grande mídia em todos os níveis, já sabiam que aquela história não tinha como terminar num final feliz. O problema não estava no modelo adotado, mas na perversão contida nele. No período pós-guerra, a “Era do Ouro” de Hobsbawm, caracterizada por um boom econômico capitalista que, sob o comando das formulações keynesianas3, gerava riqueza e a distribuía como nunca foi visto na história do sistema do capital. No entanto, a chamada “crise dos anos 70”, fomentada pela astronômica alta do petróleo, veio trazer às elites econômicas um alerta: a certeza de prosperidade já não era tão óbvia, e, pelo contrário, a fórmula keynesiana estava amarrando a geração de riquezas. Isso acontecia porque o capital tinha inúmeros obstáculos para encontrar livre caminho de circulação sob a regulação intervencionista do Estado. O Chile do general Pinochet tinha sido o primeiro laboratório para a mudança de paradigma na economia, e apontava para a possibilidade de bons negócios. Muito antes da posse de Margareth Tatcher, em 1979, na Inglaterra – o marco fundamental da virada neoliberal –, o Chile já mostrava ao mundo como fazer para unir perversidade econômico-política e lucro. Já estava posta a fórmula capaz de virar o jogo: desregulamentação econômica (o Estado forte ficava somente para a população), concentração da renda com sensível alívio fiscal para o bolso dos mais ricos (com prejuízos para os serviços públicos e para o Bem Estar Social), privatizações de empresas públicas (abrindo a economia para o capital transnacional), desmonte da máquina sindical (com brutal repressão às lideranças dos trabalhadores), desemprego massivo (possibilitando o corte de custos na produção, justamente nos custos salariais – potencializando a mais-valia). Esse sistema, de inegável perversidade no que diz respeito ao respeito à cidadania, tomava forma e realizava o que a Escola de Mont Pèlerin4 idealizava para pôr fim ao capitalismo solidário do keynesianismo. A receita era um recrudescimento das regras do capital, com um frontal ataque a todas as amarras que pudessem frear o lucro. Em outras palavras, um retorno aos princípios liberais – os mesmos que haviam falido o mundo na década de 30. A Inglaterra de Tatcher e os Estados Unidos de Reagan tomaram a frente da nova tendência, e os mesmos princípios aplicados no Chile da ditadura sanguinária de Pinochet foram estabelecidos como os novos parâmetros de ação capitalista. Em curtas palavras, o capital, acossado pela realidade da crise energética, ensaiava a sua salvação, ou melhor dizendo, a salvação de seus anéis, iniciando uma ofensiva sobre o Estado que, nos moldes pós-guerra, concentrava suas atenções sobre o bem estar social, buscando gerar riqueza e distribuindo-a ao mesmo tempo. Os anos 80 assistiram, assim, à implantação paulatina do neoliberalismo no mundo desenvolvido, e um novo estatuto de gerenciamento dos fluxos de investimentos se configurava, alavancado pela eclosão das novas tecnologias e pela emancipação do financeiro sobre a produção – o que veio a gerar o que Allan Greenspan chamou, em 1997, pouco antes da crise asiática, de “bolha financeira”, cuja “explosão” pode ser compreendida como a causa direta da depressão que atinge a maior parte do mundo capitalista neste início de século. Foi com Fernando Collor de Mello, em 1990, que o Brasil deu os primeiros passos em direção ao ideário de Hayek e sua sociedade, porém a estrutura “arcaica” e “atrasada” das elites brasileiras, segundo classificação de Collor, impedia a “modernização”, conforme as palavras do mesmo Collor. O impeachment, a posse do vice Itamar Franco e a ascensão de Fernando Henrique Cardoso com o Plano Real vieram corrigir as claudicantes primeiras iniciativas que prometiam a inserção do Brasil no mundo dos ricos. Promessas irrealizáveis, como os amantes audazes se fazem nos primeiros tempos de enamoramento. Como dissemos, o modelo é perverso, e não admite a entrada de qualquer novo membro “emergente” no mundo dos “bem nascidos”. Os que conseguem furar o bloqueio, como os países asiáticos, apelidados de “tigres” pelos admiradores da pujança oriental – pujança que se fez tendo por base a exploração radical dos trabalhadores, gerando o barateamento dos custos e a “desassistência” social – o fazem com o custo da qualidade de vida de sua população. A perversidade do capitalismo de livre-mercado chegou às raias da mais pura infâmia, e aqui mesmo, no Brasil, pudemos assistir ao exemplo de como se pode vitimar toda uma sociedade para satisfazer a voracidade dos capitalistas transnacionais: a guerra fiscal, a disputa por parte de Estados da Federação pela instalação de grandes montadoras de automóveis, com isenções fiscais que inevitavelmente acarretaram o corte dos investimentos em, principalmente, saúde, educação, assistência e previdência social. Já em 1999, primeiro ano do segundo mandato de FHC, o sonho tinha acabado, e a sociedade brasileira despertava e constatava que fora enganada em suas expectativas. Fernando Henrique Cardoso havia, no máximo, conseguido iludir satisfatoriamente a população por um mandato com a “farra dos importados” patrocinada por uma paridade cambial fictícia, que veio a ruir imediatamente após sua posse para o segundo mandato. Este começou mal, e mostrou-se mais desastroso do que se podia imaginar. Falhara FHC ou falhara o modelo que seu governo adotou no afã de manter a estabilidade monetária à custa de juros altos e produção baixa? Nem uma coisa, nem outra. Fernando Henrique Cardoso não seria tão tolo a ponto de crer que conseguiria fazer o país ingressar no seleto clube do primeiro-mundo com a mera e simples adesão ao consenso neoliberal de Washington, e o modelo foi feito exatamente para o que conseguiu: concentrar a renda através de um saque aos países periféricos, com o endividamento crescente destes, ou melhor dizendo, de suas populações, notadamente as sul-americanas, já bastante depauperadas pelos surtos inflacionários dos anos 80 – a “década perdida”. Se houve falhas, estas foram da oposição, que não soube apresentar à população, nas eleições de 1994 e 1998, uma alternativa para a perversidade neoliberal. Ou falhou a opinião pública, que se deixou engabelar por duas vezes pela mão espalmada de Fernando Henrique, que prometia saúde, educação, moradia, trabalho e desenvolvimento, mas só conseguiu esbofetear o bom senso de uma sociedade que, castigada pelas dificuldades da “década perdida”, embarcou na aventura de viver um sonho como se estivesse apostando na realidade.
A esperança não pode morrer, e Lula sabe dissoA face da população brasileira ainda ardia quando o ano de 2002 começou. Sem o sonho que havia sido vendido pela aliança PSDB-PFL no alvorecer do governo FHC, restava a esperança de que a eleição presidencial daquele ano pudesse trazer uma luz no fim do túnel da recessão que se mostrava cruel para a maioria dos brasileiros. A experiência fora dura, trazendo um incremento drástico da inadimplência e do desemprego e atirando a economia nacional numa grave dependência do fluxo de capitais externos, sem praticamente qualquer defesa contra a excessiva volubilidade desse fluxo – causadora de graves crises econômicas em países como o México, a Rússia e a Argentina. Lula foi eleito como o representante da esperança de mudanças em um quadro tão dantesco como o que brevemente expomos neste ensaio. Uma tarefa bastante difícil, levando-se em conta o fato de que o panorama político internacional que, quando positivo, sustentou em boa parte o bom início de FHC, encontra-se deteriorado, conforme se poderia esperar diante da marcante voracidade neoliberal na última década. Afinal, de um modelo econômico marcado pela patologia insana da idolatria do dinheiro não podia se esperar nada além da recessão que hoje atravessamos. A dívida brasileira elevou-se a patamares inimagináveis – 250 bilhões de dólares – e a economia estagnou-se mostrando um crescimento pífio nos últimos oito anos – um sinal alarmante de que o projeto desenvolvimentista fracassou no Brasil. A população empobreceu juntamente com o país, e os investimentos estrangeiros se mostraram mais com apostas num cassino do que com incentivos à produção. A proposta de Lula para enfrentar a sombria herança recebida se funda, desde a campanha, na forma de uma pirâmide invertida: na base, a sua integridade e a de seu partido5 formando o pólo de onde partem as duas ações que deverão orientar sua gestão, o desenvolvimento e o investimento na erradicação da miséria. Porém, diante da trágica situação vislumbrada já antes da posse, bem cedo se pôde constatar que havia uma tarefa mais urgente a ser posta em prática: garantir a sobrevivência econômica do Brasil. Como as bases corroídas da soberania nacional sobre suas próprias finanças mostram-se mais frágeis do que se podia prever, o governo se vê às voltas com a impossibilidade de realizar seu projeto de origem e a única coisa a fazer neste momento é administrar a massa falida. Os 61% de votos conseguidos pelo representante do PT lhe dão uma credibilidade bastante confortável para gerenciar o caos econômico, e os índices de popularidade mostram que a população que o elegeu parece saber que, se as duas pontas de cima da pirâmide ainda se encontram por realizar, a base continua firme. Ou seja, apostam na integridade do presidente que elegeram. O gerenciamento que Lula vem operando tem compromissos claros. Acossado pela péssima realidade, não resta ao novo presidente outra opção senão a de tentar agir como um bombeiro: é preciso, primeiro, debelar o incêndio fomentado por seu antecessor, para depois avaliar toda a extensão dos estragos e reconstruir a economia nacional. Parece ser o que Lula vem tentando fazer nos seus primeiros dias de Planalto, e foi, é bom lembrar, o que prometeu na campanha, notadamente quando teve a consciência de que o tal “mercado” reunia poder suficiente para, num movimento, retirar o crédito do país e simplesmente riscar o Brasil do mapa econômico mundial, como vinha ameaçando fazer. Para compreendermos melhor o sentido da esperança que devemos ter em relação a Lula é necessário conhecer bem a conjuntura em que se deu sua eleição e caracteriza o engessamento que caracterizará, inevitavelmente, boa parte de seu mandato. Aqueles que basearam suas expectativas numa transformação radical da realidade econômica brasileira, o fizeram porque não sabiam da absoluta falta de opções deixada pela terra arrasada deixada por FHC. Esperança, nos primeiros tempos do governo petista, deve se traduzir na expectativa de manter o país funcionando, sem o risco de “default” – que nos faria sérios candidatos a um “corralito” nos moldes portenhos. Lula não pode deixar a esperança morrer, por isso precisa aceitar a realidade e apostar em melhores dias. Sem isso, não haverá o que esperar.
(1) Receituário do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (Bird) para a estabilização da economia dos países periféricos que preconiza: 1) combate à inflação levando à estabilização da economia; 2) realização de reformas chamadas de “estruturais”, o que significa a adequação do país à entrada do capital financeiro – privatizações, desregulamentação da movimentação financeira, liberalização comercial, congelamento de salários, desemprego estrutural, enfraquecimento das representações sindicais, fim do déficit público (para conseguir o afamado superávit primário); 3) a entrada do capital financeiro internacional em si, supostamente alavancando o desenvolvimento (na verdade, devorando o que acha pela frente). O “Consenso” surgiu durante um encontro entre os funcionários das entidades citadas e alguns economistas latino-americanos, com o governo americano como anfitrião, em novembro de 1989 (para Nicolau Sevcenko – enquanto Fernando Barros e Silva sugere o início de 1990 – Matéria “O real divide a sucessão e traz à tona o debate sobre a adesão do país ao Consenso de Washington”, publicado na Folha de São Paulo, caderno Mais!, 3 de julho de 1994). O termo “Consenso de Washington” parece (segundo Fernando Barros e Silva) ter sido cunhado por John Williamson, um economista inglês radicado nos Estados Unidos, presente no encontro. (2) Para John Maynard Keynes, o amor ao dinheiro por si só, sem interesses diretos em investimentos civilizatórios, característica do liberalismo e do neoliberalismo, seria “uma repugnante morbidez, uma dessas propensões semicriminosas, semipatológicas, que entregamos com um estremecimento a especialistas em doenças mentais”. (3) Que preconizavam fundamentalmente o controle do Estado sobre as movimentações financeiras para evitar o que aconteceu na depressiva década de 30, salvando assim o capitalismo da ruína que o liberalismo produziu. (4) Pequena cidade suíça onde se reuniu o que Perry Anderson chamou da “franco-maçonaria neoliberal”: Milton Friedman, Karl Popper, Lionel Robbins, Ludwig Von Mises, Walter Eupken, Walter Lipman, Michael Polanyi, Salvador de Madariaga e Friedrich Hayek, o líder da seleta sociedade. (5) A própria existência das dissidências, no seio do PT, quanto às propostas iniciais do governo apontam para essa integridade e para a natureza democrática do partido. Nossa esperança, nesse caso, é que os dirigentes partidários saibam compreender a riqueza dessa experiência para a vivência democrática de uma agremiação política e para o próprio governo, e abandonem as propostas de desligamento dos dissidentes, aceitando a possibilidade de conviver com as diferenças. Não nos parece que a divergência possa acarretar tantos problemas para o governo quanto os que advirão com a expulsão dos divergentes. Nunca é demais lembrar que a fundamental diferença entre os partidos de esquerda e os de direita se baseia no fato de que naqueles há militantes (com idéias e ideais) e nestes predominam os “sócios” (interessados apenas em quanto vão levar com mais um esquema). Não há como duvidar que é mais saudável para o país a existência de militantes. Os “sócios” costumam ser muito nocivos para o Estado e para a sociedade. September 20 Lei do Sílvio SantosTudo por dinheiro Enquanto prevalecer a compreensão de que o ganho financeiro é o principal dispositivo de orientação de um veículo de comunicação, assistiremos ao esvaziamento da credibilidade não apenas das empresas jornalísticas, como das instituições que fornecem a base da sociedade democrática, tais como a Justiça e a Política. Essa noção, inspirada pelos textos do teórico português João Pissarra Esteves, é muito adequada para pensar o papel dos meios de comunicação na (de)formação ética da sociedade. Pissarra Esteves entende que a Opinião Pública contemporânea é a "opinião" de indivíduos isolados não fisicamente, mas espiritualmente. Não há, assim, identidade naquilo que chama "massa". Há, isso sim, a sujeição a dispositivos midiáticos. Esses dispositivos são controlados por empresas. Logo, a comunicação, o uso do arranjo de língua e linguagem na formulação da subjetividade, está indelevelmente influenciada pela chamada "filosofia" empresarial. Esse uso não tem se mostrado correto. A práxis midiática corre no sentido da perlocução, inclusive o jornalismo. A estratégia informacional é exercer um efeito emocionalmente envolvente e pilhar o sujeito do senso de uma formulação subjetiva para instaurar uma simulação identitária em que não há nem individualidade nem mesmo sequer subjetividade. Em outros termos, controlando seu comportamento e, indo além, sua definição subjetiva. Fatos? Para quê? O fato não importa. Notícias são produzidas não sobre fatos, mas sobre afirmações de advogados, juras de justiça de promotores, conclusões imprecisas de policiais, entrevistas de suspeitos etc. Tudo se transforma numa telenovela. Não há investigação e não há qualquer proposta aparente além do aumento do faturamento pela via da comoção folhetinesca. Não se formam pessoas nem cidadãos. Pelo contrário. Para a mídia, não existem indivíduos nem identidades, apenas uma massa quantificável. Sem ética, não há sociedade Adela Cortina, professora da Universidade de Valência e diretora da Fundação para a Ética nos Negócios, diz que a gestão ética das empresas se converteu em algo fundamental para fazer com que um projeto social perdure. Adela entende que as empresas têm buscado apenas resultados de curto prazo e isso é algo que deve mudar se queremos que as pessoas se comportem de modo ético. Para uma empresa de comunicação, essas palavras têm um valor inestimável. Afinal, são elas as principais articuladoras de preceitos que formam ou deformam a subjetividade do cidadão. Agindo prioritariamente com a inspiração do lucro, dão um péssimo exemplo. Incitam a uma forma de vida sem civilidade, à barbárie da lei do "tudo por dinheiro". A curto prazo, parece tentadora essa esfaimada obsessão por audiência e ganho financeiro. A longo prazo, os resultados poderão ser terríveis: sem ética, não há sociedade possível. Ecologia no capitalismo? ahahahO SUPÉRFLUO DO CONSUMO Luiz Geremias · Curitiba (PR) · 26/5/2008 12:43 · 5 · Uma sociedade de consumo não é aquela na qual as pessoas simplesmente compram produtos. Isso aconteceu e acontecerá em qualquer grupo social, sempre. Esse conceito é adequado para uma forma de vida que se caracteriza predominantemente pela compra de produtos supérfluos. Uma sociedade em que se compram carros para transporte, não é uma sociedade consumista. Outra, na qual os carros são adquiridos para simbolizar algo, seja o status ou a identidade, essa, sim, pode ser chamada de sociedade de consumo, ou ainda uma sociedade consumista. Não é, assim, o fato de consumir, mas o consumo de bens simbólicos, logo, numa lógica utilitarista, de supérfluos. Em uma sociedade de consumo é preciso haver uma cultura de consumo. É preciso, mais que isso, que se definam personalidades que, através do consumo, se estruturem e definam. Assim, o que se pode chamar de supérfluo – em um carro, a marca, a aerodinâmica, a potência do motor e, principalmente, a identidade que a publicidade lhe confere – é o que define a personalidade consumista. O que esta busca jamais está relacionado à utilidade do produto que consome, mas ao lugar simbólico que ocupa. O símbolo é uma abstração com uma articulação inequivocamente arbitrária. Não há qualquer relação entre o símbolo e o significado que lhe é atribuído. Se houver, passaria a se chamar ícone. Nem mesmo a tênue identidade que define um índice pode ser encontrada no símbolo. Isso, é claro, se tomarmos de forma impecável a semântica de cada termo. Esse terreno, o do simbólico, parece bastante propício para a ação ideológica, ou, se poderia dizer, vive essencialmente submetido a ela. O uso do símbolo é fundamental para o consumo do supérfluo. O vínculo entre o símbolo e seu significado tem um singular caráter arbitrário. O completo vazio existente entre o que é simbolizado e o símbolo está preenchido por um complexo de referentes, “representações”, ou “objetos”, diria a psicanalista Melanie Klein. O interessante é notar que esses referentes são ali postos de forma articulada, muito embora a articulação entre eles não seja mais do que um artifício. E é nesse terreno eminentemente artificial, aquele que Jean Baudrillard localiza no simulacro, que encontramos a matéria prima do edifício do consumo. Simular, nesse caso, não é exatamente fazer parecer real o que não é real. É substituir o real, que, assim, acaba tragado pela simulação. A esse fenômeno, Baudrillard enuncia se tratar de um hiper-real: uma realidade mais real do que o próprio real, simplesmente porque é articulada de uma forma em que não há lacunas, hiatos ou dúvidas. Dir-se-ia o real desvendado, como se isso fosse possível. Uma ilusão estonteante e absolutamente nefasta. O sujeito simbólico da sociedade de consumo torna-se, desse modo, um impotente político. Tem não apenas seu pensamento e seu comportamento controlado de fora, por outrem, mas, fundamentalmente, toda a sua subjetividade. Torna-se, no dizer de Slavoj Zizek, algo como um robotic pupet, um fantoche maquinicamente animado. Movimenta-se entre símbolos arbitrariamente postos e os identifica como seus, entende-se como autor dessa pantomima, quando evidentemente não é. A sociedade de consumo, como dito, é a sociedade do supérfluo. Não exatamente no que diz respeito ao consumo, é preciso dizer. Todo o élan criativo, toda e qualquer manifestação de singularidade, tudo aquilo que faz com que a vida possa ser chamada de vida no seu pleno significado é que é realmente supérfluo. Em outras palavras, o que é extravagantemente desnecessário é tomado como fundamental, enquanto o que define a vida, o que oferece a plenitude da posse e do compartilhamento da existência, é completa e resolutamente inútil. Ao tornar o excedente a principal meta, a sociedade de consumo esconde a miséria do que lhe falta. E esbalda-se em sua própria miserabilidade. |
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